') popwin.document.close() }

Jornal Olho nu - edição N°182 - Janeiro de 2016 - Ano XVI

Anuncie aqui

Bonecos de Olinda

por Arthur Virmond de Lacerda Neto
12.XII.2015.

 

Em passeio de vilegiatura, por Olinda e Recife (em dezembro de 2015), encontrei, na primeira, à venda, inúmeros bonecos de argila, tão próprios de Pernambuco, a exemplo da representação, em miniatura, do boi-bandeira (boi que se recobre de manto colorido, em festividade popular) e formas humanas, coloridas ou não, de dimensões também pequenas. No Museu do Homem do Nordeste (em Recife) expõe-se várias modelagens, pintadas, que representam cenas da vida e da atividade profissional.

 

Em Olinda, deparou-se-me um bufarinheiro, de nome Augusto, que, em meio a inúmeras artesanias destinadas principalmente aos turistas, vende bonecos singulares: fabricados com argila tingida de preto, representam escravos nus. Dentre vários vendedores (em praça pública e em lojas), é o único que mercadeja bonecos nudistas. Disse-me não se envergonhar de os revender; não me envergonhei de lhos adquirir.

 

Comprei-lhe as duas duplas de bonecos nudistas que vendia naquele momento, em que cada qual representa um casal. Em uma, ambos personagens estão sentados; o masculino toca atabaque e a mulher, tambor. Na outra, os dois acham-se de pé: o homem, de boné (colorido); a mulher (de laços coloridos na cabeça), sustenta, nos braços, criança igualmente desnuda.

 

Os bonecos sentados são mais estéticos do que os seus congêneres; em relação a estes, o masculino pode chocar os pudicos porque expõe o respectivo pênis, órgão tradicionalmente ocultado na arte, a partir do século 16: na escultura e na pintura, o pênis tornou-se órgão proibido, que se oculta, hábil ou canhestramente, contudo sempre adrede, por meio de ramagens, de panos que descaem sobre ele, da posição do retratado, de objetos que ele ou que algum circunstante porta ou por outros meios, igualmente artificiais.

 

Trata-se de falofobia, condicionamento cultural de origem católica, que se entranhou nos costumes e segundo o qual é imperioso ocultar o pênis e vergonhoso expô-lo. Ela constitui aspecto da gimnofobia (recusa da nudez), preconceito inteiramente sem sentido e completamente estúpido.

 

Observo a falobofia nos ginásios de musculação de Curitiba (segundo constou-me, ela se reproduz nos de São Paulo), cujos freqüentadores evitam, absolutamente, exibir o seu pênis no vestiário, ao ponto em que adentram a cabine do chuveiro de cueca e de cueca dela se retiram; se saem com a cintura envolta em toalha, vestem a cueca por debaixo dela. Considero caricato e ridículo que procedam assim, por pudor ou por imitação.

 

A antiga estação ferroviária de Belo Horizonte contém oito pares de mamas visíveis

Por outro lado, em várias cidades brasileiras, a escultura e a decoração de edifícios públicos e de praças, dos anos 10 e 20 do século 20 apresentam figuras femininas de mamas ao vento: assim, o antigo edifício da prefeitura de Curitiba, em cujo topo vê-se uma mulher nestas condições e seis crianças nuas; a antiga estação ferroviária de Belo Horizonte contém oito pares de mamas visíveis e defronte a ela, o monumento em homenagem aos inconfidentes apresenta uma estátua de nu masculino, de nádegas expostas e em que a figuração de um pano desajeitadamente encobre-lhe o pênis. Em Recife, na praça Maciel Pinheiro, chafariz de mármore apresenta uma índia com os seios à vista; em Olinda, pequeno boneco, em praça, representa mulher na mesma situação; em Porto Alegre, na rua dos Andradas, em fachada de casa vê-se boneco de avantajadas dimensões, que representa mulher também de mamas ao vento. Em Curitiba, na praça Dezenove de Dezembro, instalou-se casal de gigantes de pedra: homem, de pé, estilizado, cujo pênis vagamente se nota; mulher, sentada, de mamas salientes, que por anos permaneceu oculta, por detrás do palácio governamental, pois o seu desnudamento escandalizava as pudibundas curitibanas de então.

 

Ainda em Recife, o admirável Instituto Ricardo Brennand possui, próximo da entrada de um dos seus pavilhões, réplica do Davi, de Miguel Angelo (nu em pelo e de pênis perfeitamente visível); uma das dezenas de estátuas expostas no Instituto constitui-se de escultura nórdica, dos anos de 1950, em que casal se beija: ambos despidos e o homem com a sua genitália perfeitamente caracterizada e exposta.

 

Segundo me constou por quem conhece capitais do nordeste brasileiro, em Maceió, Fortaleza, Salvador, são tradicionais bonecos de barro que representam homens e mulheres negros e nus, em situações variadas, a exemplo de no telefone ou como banda musical. Os masculinos de pênis à mostra, os femininos com mamas ao vento, muitos deles com tais partes avultadas em desproporção ao corpo, no intuito de frisar-lhes a existência, um pouco caricaturalmente.

 

Nem as mamas são vergonhosas, nem o pênis o é. Não faz sentido a censura deles na pintura, na escultura, nas mentalidades nem nos costumes.

 

Josefina Maria Castellano Biscaia, que se dedica à pintura de bonecos de gesso, fez-me presente de figura feminina, que traz um seio exposto. Septuagenária e curitibana, não comunga do preconceito gimnofóbico.

 

Consoante Augusto (o bufarinheiro de Olinda), alguém lhe afirmou que não exporia em casa os bonecos nudistas, mesmo que lhe pagassem para tal; repugnaram-no fosse pela nudez, fosse por preconceito racial, fosse por desapreço estético, separada ou combinadamente.

 

Já eu paguei para tê-los em casa: pelos sentados também por estética; pelos quatro, mercê da sua mensagem ética.

 

O moleiro que os moldou e Augusto, que mos revendeu, demonstraram abertura de mentalidade e ausência de gimnofobia. Assim como o primeiro não se peja de fabricar bonecos deste tipo nem o segundo, de comerciar com eles, não me inibi eu de adquiri-los nem me pejo de exibi-los em casa. Ao contrário. Independentemente do juízo estético que possam merecer, eles portam juízo ético: transmitem a mensagem do nudismo, da cultura do corpo livre de preconceitos.

 

*Arthur Virmond de Lacerda Neto

arthurlacerda@onda.com.br

 

(enviado em 12/12/15)


Olho nu - Copyright© 2000 / 2016
Todos os direitos reservados.