Jornal Olho nu - edição N°97 - dezembro de 2008 - Ano IX

 De olho na sociedade que nos cerca

por Pedro Ribeiro*

Algumas mensagens enviadas ao jornal OLHO NU com links de pessoas que fazem comentários a respeito da nudez, sexo e naturismo deixou-me um tanto preocupado com a forma como a sociedade pode estar encarando o Naturismo. Já disseram que não deveríamos perder nosso tempo com este tipo de inserções, principalmente no mundo da Internet. Mas eu acho que a gente naturista não deveria achar que está vivendo num mundo cor de rosa, e que a aceitação de nosso estilo de vida é apenas uma questão de tempo.

Uma delas de um terapeuta sexual e ginecologista, Calvino Fernandes, autor de um artigo publicado no endereço eletrônico http://www.bonde.com.br/bonde.php?id_bonde=1-27-6-50-20081117 com o título "Nudez: pudor, desinibição ou liberdade extrapolada?", pretendendo derrubar mitos e tabus a respeito da nudez e do naturismo.

Ele começa "Os naturistas são pessoas que praticam o nudismo e acreditam em uma espécie de harmonia com a natureza como forma de promover o respeito pelo próprio corpo, pelos outros e pela natureza".  Ele livra nossa cara dizendo que a real motivação para se praticar o naturismo não poderia ser o exibicionismo, "pois o exibicionista tem uma forte intenção de agredir e chocar" que, na opinião dele, parece não ser o nosso caso.

De maneira não conclusiva ele revela que a sociedade em geral trata a nudez e a vestimenta de maneira contraditória e até aconselha os "pais a tratarem da nudez de uma forma mais natural, sem mitos e tabus, e assim aceitar a curiosidade entre os irmãos ou entre pais e filhos, porém", ressalta, "na privacidade dos lares".

No final fez algumas considerações, que são contrárias às de nossa filosofia: "estar despido não é o que faz as pessoas aceitarem-se como realmente são; o mesmo sol que banha o corpo nu, produzindo vitamina D, também produz a mesma vitamina naqueles que estão com roupas de verão; a nudez não está só relacionada ao sexo, mas sem dúvida sensualiza o ser humano" e a mais polêmica "a nudez é inaceitável no convívio social, pois é uma forma de defraudar o outro.

O segundo texto, agora publicado em um site de turismo, no blog da jornalista Adianna Setti, da revista Viaje Aqui, cujo endereço é http://viajeaqui.abril.com.br:80/indices/conteudo/blog/105880_comentarios.shtml?3522171. O texto faz uma crônica sobre as praias da Espanha, onde em qualquer uma é permitido tomar banho de sol e mar sem roupas e tinha o objetivo de encontrar as praias mais sexy da área. Mas uma amiga brasileira, convidada pela jornalista a ir a uma praia nudista a uma hora de Barcelona, "depois de algumas horas entre um ou outro corpo escultural, meninos depilados (afe, aqui é moda), fiozinhos de OB ao ar livre e gorduchos desinibidos, entregou os pontos: 'Prefiro mil vezes praia com biquíni, isso aqui não dá o menor tesão'”.

Ao menos esta aí constatou o que o naturismo não pretende ser. De qualquer forma revela desinformação a respeito de nosso movimento.

O terceiro texto, publicado também em um blog, revela a decepção que uma frequentadora teve com as áreas e as pessoas naturistas que conheceu, generalizando comportamentos de maneira perigosa.

O título de seu relato é: "DEIXEI DE SER NATURISTA, ACHO QUE VOU VIRAR PELADISTA!" está disponível no endereço http://peladista.blogspot.com/2008/11/deixei-de-ser-naturista-acho-que-vou.html. Foi postado por uma Ariana B, que é frequentadora há oito anos e agora resolveu "pela primeira vez, escrever sobre minhas impressões sobre o que vi, ouvi, ouço e vejo entre os naturistas e parar para refletir se vale à pena continuar defendendo o naturismo por aí."

Considero o relato de Ariana o mais preocupante por tratar-se de alguém, segundo ela própria, que vivia no meio naturista, diferente dos anteriores cujas experiências eram poucas ou nenhuma. A seguir reproduzo seu texto na íntegra:

"Quando ouvi a palavra naturismo pela primeira vez achei estranha, então fui tentar verificar a que a palavra induzia. Descobri o seguinte no dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa, naturismo: natura + -ismo, prov. pelo fr. naturisme (1778) 'doutrina filosófica que considera a natureza como autora de si mesma' conjunto de idéias que preconizam um retorno à natureza como a melhor maneira de viver (vida ao ar livre, alimentos naturais, nudismo etc.). Tal terminologia leva a se compreender que “naturismo” implica reconhecimento do poder, da força, da independência da natureza, e que retornar à essa natureza poderosa respeitando-a se viverá melhor. E que naturismo inclui, viver livremente ao ar livre, fazer uma alimentação saudável porque assim não será necessário recorrer a fármacos, a própria natureza encarrega-se de proporcionar saúde ao indivíduo, e que naturismo é inclusive ficar pelado, ou seja, andar nu. Aí me pergunto, mas porque andar, nu, em que momento dessa filosofia seria necessário que eu ficasse nua? Para refletir sobre a vida sozinha ou em grupo? Para tomar banho de sol, apenas? Para nadar nos rios? Para suportar melhor o calor? Ou seja, veio-me uma série de questões em torno do para quê tirar a roupa. Muito bem.

Depois dessa reviravolta mental, topei conhecer pessoas envolvidas com o naturismo. Antes de sair perguntando coisas, preferi observar as atitudes. Então descrevo o que vi, via e vejo: pessoas reúnem-se nuas para fazer refeições (ou seja, almoçar ou jantar); normalmente ocorrem em sítios ou fazendas, normalmente, com piscinas, saunas, cachoeiras, quadra poliesportiva, campos para a prática de jogos em equipe, onde há muita vegetação e às vezes animais como gato, cachorro ou peixes em tanques. Percebo que as atividades propostas por esses espaços sugerem que as pessoas estejam juntas, sugerem que as pessoas estejam reunidas, que estejam, fisicamente, mais próximas uma das outras. Bom, até aí uma parte do naturismo que tenho em mente concretiza-se: as pessoas nuas mais próximas, fisicamente, umas das outras dos vegetais e dos animais, beleza. Que lindo! Achei maravilhoso.

Continuo a descrever, mas agora, sobre o que ouvia, ouvi e ouço: “olá muito prazer, meu nome é tal”; “de onde você é?”; “o que você faz?”; “ah, eu sou profissional em tal área”; “ah, eu faço tal coisa”; “você está acompanhado (a)?”; “ah, estou” ou “ah, não estou acompanhada”; “desde quando você está no naturismo?”; “bom, eu estou desde...”; “ih, é minha primeira vez em ambiente naturista”; “que legal, seja bem-vindo (a)”; “olha, depois de quinze minutos você nem vai mais perceber que está nu (a)”; “depois você nem vai mais querer colocar a roupa”; “pessoal, já tem carne pronta!”; “e vocês, não vão comer?”; “e vocês não bebem cerveja?”; “bom, eu bebo, mas é que estou dirigindo!”; “nossa que lugar bonito!”; “que lugar fresquinho”; “que piscina linda”;; “vamos jogar bola?”; “vamos para a sauna?” “poxa o dia foi maravilhoso!”... e acabou o assunto; “bom, até o próximo encontro”; “tchau!”. Esse é o assunto que rolou no encontro naturista. Conversas que levam as pessoas a se conhecerem melhor. Acolhedor! Há um interesse em saber sobre a vida profissional e pessoal do outro quando o outro está vestido. É bom isso! Faz parte da vida, vestidos ou pelados. No entanto, também está dentro da filosofia naturista! Ótimo!

Enquanto era primeiro encontro tudo bem, mas conforme o tempo foi passando, e isso foi repetindo-se foi ficando sem graça porque fui vendo que as pessoas não estavam, e não estão, tão próximas da natureza quanto parece. A parte do naturismo que cumprem é apenas o nudismo: ficar pelado! e ainda não têm claro em suas mentes porque é que tiram a roupa.

Diante do conceito de naturismo, o qual abarca toda uma filosofia ou estilo, fiquei interessada, mas isso implica meu relacionamento não só com os vegetais e animais irracionais, mas principalmente com o ser humano. Aí fui tentar por em prática, começando por tirar a roupa, fazer uma alimentação saudável, respeitar mais o meio ambiente (que não é só o sítio ou a fazenda onde os naturistas se encontram esporadicamente, mas a área urbana onde a maioria vive), olhar mais para os animais e respeitá-los... Até aí não tive problema algum porque a natureza é poderosa, respeitosa, generosa; os animais irracionais são generosos, respeitosos, amigos; o problema é o ser humano...

Bem, vamos lá... Descobri há naturistas e naturistas, há um grande número deles que se acha superior aos outros que não tiram a roupa “em público”; há naturistas que não respeitam gays e lésbicas...; há naturistas que não respeitam gordos e negros; há naturistas que são invejosos; há naturistas que são arrogantes; há naturistas que tiram sarro do tamanho do órgão sexual do outro; há naturistas que reparam o órgão sexual da outra; há naturistas que... Que decepção! Os naturistas também são seres humanos!!! Eu pensava que era um grupo de pessoas que punha em prática no mínimo o respeito ao próximo independente de religião, raça, time de futebol. Eu pensei que conseguiria conversar sobre, cinema, política, ética, artes em geral, filosofia... discutir qualquer assunto sem que uma das partes tomadas de cólera ofendesse minha pessoa e apenas discutisse as idéias! Eu pensei que não teria alguém do grupo de chamados naturistas, tentando impor sua visão de mundo sobre a minha de maneira tão primitiva, através de agressão verbal, de xingamentos... Eu pensei que ser naturista era ser pessoa de mente aberta para respeitar as diferenças...

CONCLUSÃO: questão da natureza é apenas uma desculpa para ficar pelado; o outro é aceito desde que pense igual ao líder do grupo; o líder do grupo respeita o outro desde que pense como ele; a nudez é motivo de chacota; a estética física do outro é alvo de sarro. Há uma inversão curiosa nos ambientes naturistas: QUEM ESTÁ VESTIDO É EMPREGADO, sem falar que é um reino de Poliana em que todos se vêem como puros e santos. É uma cambada de burguesinho especializado em excluir socialmente o outro, é um grupinho de crianças crescidinhas que fica esperando que papai Gabeira aprove a lei em prol do naturismo para ficarem brincando de ficar peladinho na beira da praia.

Gente!!! Fala sério, há atitudes que em crianças ficam engraçadinhas, mas em adultos são patéticas.

Que pena! Acho que vou virar PELADISTA!!! Há algum (s) por aí?"

O texto de Ariana é incômodo porque sabemos que muitas coisas do que ela disse é verdadeiro. Esses problemas também me incomodam no Naturismo. Mas como ela própria reconhece quando diz "há naturistas" não são todos assim, aliás eu diria até que não é a maioria que age desta forma, mas como em quase todo grupo social o erro acaba ganhando mais destaque que o acerto.

O objetivo de colocar estes textos disponíveis para os leitores do jornal OLHO NU é nos levar à reflexão, para fazermos uma auto-análise e corrigir rumos indesejados de nosso movimento. É para termos consciência também de que, como diz Ariana, não vivemos num reino de Poliana, num reino de faz-de-conta. Estamos inseridos numa sociedade maior que tem uma série de dúvidas, questionamentos e percepções indesejáveis de nossa filosofia. Afinal o que estamos fazendo para mudar esta visão dos outros sobre nós? Por que a grande maioria naturista não tem coragem de admitir que é naturista fora do meio, no seu trabalho, no círculo de amizades e, até em muitos casos, dentro de sua própria família?

Acredito que o naturismo está precisando de debates e discussões em seu próprio meio, nas reuniões físicas e não somente na Internet. Mas acho que ele não precisa de marketing, como se vendesse um produto, pois acontecerá como em qualquer outro item comercializado, as informações são maquiadas e muitas vezes falsas. Infelizmente a quase totalidade dos frequentadores está realmente apenas interessada em beber sua cerveja e comer seu churrasco. Quando se organizam debates e palestras, estes geralmente ficam às moscas.


Para alívio faça uma leitura do texto da psicóloga Maria Paola de Salvo, com o título "Nudez, cada família uma sentença", no link: http://www.clicfilhos.com.br/site/display_materia.jsp?titulo=Nudez%2C+cada+fam%EDlia+uma+senten%E7a, enviado por João Carlos de Oliveira em 26/11/08.


*pedroribeiro@jornalolhonu.com

(enviado em 5/12/08)


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