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NATURALMENTE #
14
por Paulo Pereira*
(fotos meramente
ilustrativas)
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foto: Clothes Free |
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Na tarde chuvosa de
verão, dou vez a uma doce preguiça e me deixo embalar, despido, na rede
verde do terraço, ouvindo o suave canto dos pássaros. Acompanho, com olhar
sereno, o deslocar das gotículas d’água, que percorrem as vidraças,
indiferentes às malícias dos homens.
Súbito, o velho telefone
chama. Uma voz amiga me fala de aspectos menos nobres da dura realidade
humana. Comenta-se, entre vários assuntos, a publicação de uma pequena
nota, de autoria do badalado Ancelmo Góis, sobre uma propalada prática
sexual na Praia do Abricó (Grumari). Diz, então, o tal Ancelmo : _ “
Cresce o número de casais que fazem sexo em público na Praia do Abricó, a
da turma nudista no Rio”. Recordo, de imediato, que o mencionado
noticiarista de “O Globo” já havia escrito muitas outras tolices a
respeito dos nudistas do Abricó. Procuro, a seguir, consultar meus famosos
alfarrábios. E decido enviar um e-mail para o dito Ancelmo, que reproduzo
a seguir:
“Confesso que só costumo ler
assiduamente a página "Opinião", mas ouvi falar do seu "PAC da Saliência".
Dei uma olhada. Fiquei meio preocupado, sobretudo, com a sua aparente
ingenuidade… Mas é verdade que, ainda hoje, 25/01/2008, você exibe um
conjunto inquietante de seis belas bundas. A seminudez é santa?
Na verdade, percebe-se
claramente que o seu interesse pelas atividades nudistas é bem antigo. Em
21/02/2005, você, numa tirada um tanto pobre e escatológica, falou em "maré
vermelha", referindo-se a uma mulher menstruada, que se recusara a ficar
nua no Abricó… Em 26/02/2007, também véspera do Carnaval, festa
sabidamente permissiva e violenta, você, surpreendentemente mal informado,
falou que eram cobrados ingressos aos frequentadores do Abricó… No "PAC"
de 2008, você afirma que o sexo em público, por parte de casais, cresce no
Abricó. Será que você tem problemas psicológicos em relação à nudez e ao
sexo? Freud explicaria? Você costuma olhar o seu espelho, pelo menos de
vez em quando?
Seria oportuno esclarecer
aqui que muitas mulheres menstruadas costumam ir à praia, inclusive nuas,
porque hoje em dia há recursos adequados. As exceções não fazem a regra.
A praia do Abricó é um
espaço livre, naturista, público, e seria um total absurdo cobrar
ingressos. Triste invenção, Ancelmo! Mas com finalidade de atingir o
Naturismo? Qual a sua razão profunda, Ancelmo? O sexo, meu caro, é
praticado no mundo inteiro, pelo menos desde Adão e Eva. Agora, sexo em
público, em qualquer lugar que seja, é assunto do Poder Público; aos
sábados, domingos e feriados, quando a direção da Associação Naturista do
Abricó está presente, o controle do comportamento dos frequentadores é
rígido. Procure conhecer melhor a filosofia e a prática naturistas sérias.
De resto, menos apelação, Ancelmo; você não precisa apelar.”
É inútil dizer que o velho
Ancelmo nada registrou a respeito; ele está calado como uma gárgula sem
água numa fonte abandonada... No caso dele, diga-se de passagem, parece
até coerente, pois há quem seja sempre melhor calado. Existe muita gente
que tem medo de ser feliz...
Converso igualmente com
Pedro Ricardo, amigo de muitas jornadas, que me passa algumas observações,
que me parecem oportunas e pertinentes. Pedro me diz: _ “ Grande parte dos
naturistas tem receio de aparecer diante das câmeras de reportagem numa
área naturista, mesmo que esteja vestida(vestidos). No entanto, essas
pessoas não se importam de dar entrevistas sobre qualquer assunto, desde
que se encontre fora da área naturista. Percebo que conseguir imagens de
algumas pessoas para ilustrar artigos e reportagens sobre naturismo está
cada vez mais difícil. Sou obrigado a usar sempre imagens importadas e que
nada têm a ver com a realidade brasileira. Percebo igualmente que alguns
freqüentadores de áreas naturistas públicas têm reações muito diversas
diante das câmeras ou perante as equipes de reportagens. Algumas dessas
pessoas são exibicionistas e outras reagem até com horror e (ou)
agressividade. Os meios de comunicação em geral, continuam tendo muita
curiosidade sobre o naturismo, porém não perdem a oportunidade de fazer
matérias em tom de chacota ou, pior, em tom preconceituoso e
malicioso. Noto que muitos “naturistas”, até mesmo os que já estão no meio
há muitos anos, nunca conseguiram falar de sua opção nudista para o
restante da família, precisando buscar um procedimento escondido e vivendo
todo tempo em sobressaltos”.
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foto: Clothes Free |
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Como eu costumo dizer, é
forçoso admitir que a nudez continua sendo um tabu, algo meio inusitado ou
extravagante. A maioria das pessoas parece ter perdido sua verdadeira
identidade, vivendo apenas de meras aparências e convenções. As pessoas
permanentemente vestidas sentem-se desamparadas quando se despem,
seguramente por censura social e influência religiosa. O nu vira, para
muitos, sinônimo de indecência e de pecado o que constitui total desacato
das leis naturais. Lembremos aqui que o velho Nelson Rodrigues se fez
famoso ao proclamar que “toda nudez será castigada”... A realidade
preconceituosa e enferma, que enxerga o nu como algo imoral, é
concretamente um caldo de cultura ideal à moderna proliferação de
distúrbios psicológicos e de inúmeros transbordamentos. Mas essa estória é
muito antiga...
Reafirmo que a tecnologia e
a ciência, por exemplo, mudaram muito nesses últimos dois séculos, mas a
hipocrisia dos homens continua a mesma. Exibicionismo gratuito e
agressividade descabida nada têm a ver com naturismo. É verdade que para
muitos pseudo-nudistas –naturistas essa prática naturista não passa de
pretexto e conveniência. Eu sempre afirmo que oportunismo não é boa rima
para naturismo.
Para os meios de comunicação,
em geral, o que interessa é a nudez como produto que possa ser bem vendido.
Todos nós sabemos, na prática do dia a dia, que a nudez continua sendo um
tabu, um tabu que vende demais. Acrescentemos a isso tudo a retumbante
ignorância da maioria das pessoas em relação ao verdadeiro Nudismo-Naturismo.
Percebe-se, até com inquietação e cansaço, a prevalência dos ignorantes e
de uma plêiade de pseudo-eruditos. As pessoas que eventualmente falam em
nome do Naturismo devem ter cuidados especiais. Ao longo dos anos,
infelizmente, tenho surpreendido algumas falas de ilustres oportunistas
que, de forma tragicômica soltam disparates que, geralmente sem exceção,
fazem-se prejuízos. Como Voltaire teria dito a respeito da pescaria, as
entrevistas desses pseudo-eruditos transformam-se num faz-de-conta, com um
boboca de cada lado da linha...
A chacota, a malícia burra e
os preconceitos odiosos sempre andaram de mãos dadas, sobretudo, por falta
de auto-conhecimento. É bom não esquecer, por exemplo, que as atitudes de
um povo em relação às crianças, aos idosos e à sexualidade (sexo e nudez
incluídos) são uma medida de seu grau de evolução. O amigo Pedro Ricardo
observa argutamente que muitos “naturistas” veteranos nunca declararam sua
opção, vivendo atrás dos panos. É bom notar que o Pedro coloca esses
naturistas entre aspas. Pensemos bem nisso.
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foto: Clothes Free |
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O notável escritor Erich
Fromm nos falou sobre o medo da liberdade. Realmente há milhões de pessoas
que têm medo da liberdade, medo de viver espontaneamente, medo de procurar
ser feliz. Para ser feliz não basta tirar a roupa numa praia pública, por
exemplo. Naturismo e felicidade estão muitos degraus acima. Ser feliz é
procurar conhecer a si mesmo e, se possível, viver sabiamente como a
natureza quer, isto é: sem pedir licença para nascer ou morrer, sem
considerar preconceitos, sem se preocupar com falsos rótulos sobre
sexualidade e sem vender o corpo e a consciência pelos caminhos.
Recordemos aqui que, num determinado dia, nascemos completamente nus, sem
pedir licença a ninguém; mais tarde, na maioria das vezes, um dia morremos
fisicamente e, esqueleto ou cinzas, vamos nos misturar às essências da
terra, da mãe natureza indomável, mesmo que eventualmente sob protestos...
Repito e sublinho que a
natureza não faz nada sem um propósito. A nudez é nossa identidade física,
nossa veste de nascença. Não há instintos deletérios ou agradáveis; há
somente instintos. A natureza não pede nem admite julgamentos. Isso posto,
concluímos que a prática nudista bem conduzida, de plena conformidade
permanente com os verdadeiros postulados histórico-filosóficos do
Movimento, pode e deve ser uma base sólida (e prazerosa) de viver em tom
maior, de viver sem nenhum medo de ser feliz.
Paulo Pereira
Março/2008/Rio
*Biólogo, escritor, ex-presidente da Rio-NAT
indiangy99@yahoo.co.uk
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