NATURALMENTE #
11
por Paulo Pereira*
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O
gênio de Salvador Dali retrata a associação dos felinos com a
sexualidade, especialmente com a sexualidade feminina; os tigres
seriam os impulsos inconscientes da mulher (nua) de manter
relações sexuais. Sempre a nudez, e os gatos eventualmente. |
Afinal, o verão acabou,
as grandes badalações diminuíram, a febre das praias esfriou e até o
festival do Papa terminou...Ufa! Mas agora é o PAN! Haja paciência e
recordes! O pior mesmo é que o país, em inúmeros aspectos, continua
nivelado por baixo. Até quando? De passagem, ao lado do desemprego, da
informalidade e das intermináveis balas perdidas, sem falar nos escândalos
de corrupção, ficamos sabendo, perplexos, que 90% dos idosos brasileiros
vivem meio marginalizados, como analfabetos funcionais... Mesmo assim,
viva o Papa e o PAN! É PAN ou Pandemônio?
De fato, a mesmice parece instalada de forma soberana. Contudo, a velha
nudez humana continua sendo encarada como algo insólito, quase um grande
mistério. Os primatas vestidos, que se autoproclamam sábios, fingem
ignorar os instintos, as grandes verdades naturais. Leio em “O Globo”,
Segundo Caderno, 26/04/2007, uma crônica muito interessante, escrita por
Cora Rónai, falando de bolsas, de vidas, de gatos e da “Alma Imoral”, do
famoso rabino Bonder.
Em meio a tantas bolsas femininas, acabam sobrando certamente os gatos, os
gatos de Cora, estimados e visitados, animais fascinantes e paradoxalmente
tão mal compreendidos pelo grande público, acrescento, pois nada entendo
de bolsas, mas sou um velho amigo, e criador de gatos, esses magos
instintivos de quatro patas, sempre a nos ensinar... Mas o mistério,
afinal, não são os gatos; o grande mistério continua sendo a alma imoral e
sobretudo, a nudez humana, sempre a nudez, essa donzela inquietante.
Em “O Globo”, Cora desabafa: _ “A encenação é um ato de bravura de
Clarisse Niskier, até por se apresentar nua, eventualmente enrolando-se e
desenrolando-se com muita habilidade, num pano preto. Ainda assim, achei
essa nudez desnecessária. O fato de “na natureza não haver nudez” não
significa, necessariamente, que a atriz que pronuncia estas palavras tenha
que estar nua.” É bom observar muito atentamente o que nos diz Cora Rónai,
sempre muito espontânea. Será que ficar nu é um ato de bravura? A nudez
pode ser definida como desnecessária? O que a natureza nos ensina?
É até possível, que na
prática especialmente diante de tantos preconceitos e de tanta hipocrisia
acabe sendo realmente um ato de bravura despir-se... Recordemos que todos
os seres humanos nascem nus, naturalmente, como a natureza impõe. Não há,
pois, em princípio, nenhuma bravura nisso. A nudez é, na verdade, nossa
pele de nascença, nossa identidade física, natural, necessária, portanto,
segundo os planos da mencionada natureza. E a natureza não pede jamais
julgamentos, como sempre afirmo. Não há nudez na natureza como entendemos
o termo nudez comumente. Na natureza, tudo está como é, sem pedir
adjetivos. Eu diria até que na natureza tudo está nu, quer dizer: tudo é
simples, verdadeiro, sem máscaras.
Em sua crônica, Cora prossegue: _ “Considerando-se o fato de que a
proposta da peça é discutir a alma e o pensamento, em tese, as almas é que
deveriam estar nuas, mas, no caso dos expectadores, elas, ao contrário,
vestem-se na nudez da atriz, ou seja, aquele passa a ser o ponto de ( des)
conforto da apresentação. Um amigo, que estava ao meu lado, por exemplo,
fechou os olhos durante metade da peça, porque queria pensar sobre o que
estava sendo dito. Mesmo que em nenhum momento a nudez de Clarisse seja
provocadora, ela distrai e rouba a atenção.” As almas, ou consciências,
mostram-se quase sempre mascaradas pelos corpos, por seus invólucros, por
suas gaiolas...
Imagem: TV Globo |
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Clarice Niskier na peça "A Alma Imoral" em cartaz no teatro do
Leblon no Rio de Janeiro |
Tirar a roupa não é necessariamente estar bem despido, quer dizer: é mais
difícil e importante desnudar-se psicologicamente do que simplesmente
tirar as roupas. Depende de cada um “despir” a alma. Quem considera a
nudez um desconforto certamente anda precisando de apoio médico ou
psicológico. As almas não têm olhos até porque vêem com a “mente”; as
almas são consciências, energias livres, capazes de transgredir, como
sugere Bonder. Se a nudez da atriz consegue roubar a atenção, melhor para
essa nudez, afinal. Mas a nudez da atriz é um despojamento que mostra o
corpo sem os véus da censura, dos costumes da sociedade mascarada. A
rigor, ninguém fica nu, pois todos estão nus naturalmente debaixo dos
panos! Alma nua é metáfora... Fantasias não são verdades naturais, por
exemplo.
Os corpos nus estão como a natureza quer; a nudez só é real desconforto
para mentes enfermas, vestidas por conveniências e pelas tolices ditas
civilizadas. Quem fecha os olhos para ouvir melhor ou para não ver o outro
e a si mesmo, precisa de ajuda. A nudez costuma efetivamente roubar a
atenção porque é tida e havida como uma tentação, como algo insólito, como
extravagância e como pecado. Seríamos todos, pois, filhos do pecado e da
extravagância? Não parece provável... Os Seres humanos, enfatizo agora,
não são anjos nus; são macacos nus, como bem disse Desmond Morris. Os
homens são primatas que evoluíram ao longo dos anos, partindo de formas
peludas para a forma nua e mais sofisticada de hoje. Quem tem medo então
da nudez? Quem vive pensando que é um anjo?
Volto então às
palavras hábeis de Cora Rónai: _ “Concordo completamente com a maioria das
idéias do rabino, expostas com inteligência e criatividade. Discordo
apenas, e veementemente, quando ele afirma que um animal que se
reconhecesse como tal deixaria de ser o animal que é. A idéia por trás
dessa afirmação é, suponho destacar a nossa capacidade de raciocínio, mas
acontece que todos os animais têm a exata noção do que são; apenas não
anunciam isso. Um gato não só sabe que é um gato, como sabe exatamente o
tipo de gato que é, a tal ponto que gatos parecidos têm uma dinâmica
peculiar de comportamento. Os elefantes sabem tanto quem são que, quando
apresentados a ossadas de seus antepassados, ficam profundamente
perturbados. Eles são, possivelmente a única espécie do planeta que sabe
separar os ossos dos familiares dos ossos de estranhos. Manda um ser
humano fazer isso sem teste de DNA...”
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Capa
do livro de Nilton Bonder |
O parágrafo é conciso, bem formulado, mas pleno de equívocos do ponto de
vista estritamente científico. Emoção, imaginação e palpite, não são
Ciência... A linha limítrofe entre a fantasia e a verdade mostra-se muitas
vezes tênue, enganosa. Conceitos científicos complexos e profundos, não
devem ser emitidos impunemente por leigos, mesmo com muita ternura e a
melhor das intenções. Eu pessoalmente também sou fascinado pelos ditos
felinos, pelos gatos, esses magos, mas é preciso ir com calma. .
Os animais, até provem o contrário, não possuem raciocínio lógico, nem
linguagem articulada (falada) ou plena consciência de que são seres
finitos, indivíduos que vão morrer no futuro. Os animais frequentemente
pressentem a aproximação do instante mesmo da morte, mas não têm inteira
consciência sobre o fenômeno da morte, da finitude. O rabino tem plena
razão. Os gatos e os elefantes, por exemplo, não sabem efetivamente que
são gatos e elefantes; percebem-se instintivamente como indivíduos. Os
gatos, como comenta Cora, são parecidos, é óbvio, porque pertencem a uma
mesma espécie, mas, como indivíduos, têm peculiaridades tanto no genótipo
como no fenótipo, acrescentando-se a isso os seus hábitos, os
comportamentos adquiridos, as influências do ambiente em que vivem,
alimentação, etc. Isso nada tem a ver com razão ou consciência.
Os animais têm, geralmente,
os sentidos muito apurados, como tato, olfato, visão e audição. Por outro
lado, os homens afastaram-se aos poucos da mãe natureza, e cultivam a
tendência de emitir conceitos segundo seu prisma exclusivo, conceitos
antropomórficos em relação aos demais seres, aos demais animais, os
irracionais. Mas a natureza é sábia: não há dois seres humanos
absolutamente iguais, assim como não há na prática, dois gatos
absolutamente iguais, mas isso não quer dizer que esses gatos tenham plena
consciência de suas vidas, de que são gatos... Não vamos extrapolar!
Os indivíduos,
de qualquer espécie animal, tendem a evidenciar formas de comportamento
distintas, o que é totalmente conhecido pela ciência, mas o fato de
possuir temperamento individualizado não quer dizer obrigatoriamente ter
consciência, saber criar, conseguir pensar o futuro, ver o mundo e
filosofar. Ciência não é palpite nem subjetividade "arrumadinha". O
importante aqui, afinal, não é certamente discutir conceitos estritos,
questões especializadas nem falar de biologia, por exemplo, especialmente
a partir de matéria leiga, mas sim enfatizar sempre que meras aparências
não costumam ser verdades.
Por tudo isso, e reafirmando o que sempre costumo ressaltar, é bom notar
que uma pessoa nua nem sempre é uma (um) nudista ou naturista. Para
falarmos de almas nuas, imorais ou não, seria necessário aqui um grande
exercício de estudo e reflexão. O que entendemos por alma? O que é
verdadeiramente moral ou imoral? De passagem uma vez mais o que são os
instintos e o que é a razão? Não se trata de filosofar aqui de forma
simplista; pelo contrário, é importante e oportuno aprofundar conceitos e
definições.
Nilton Bonder fala em
“alma imoral”, mas eu preferiria falar em “alma amoral”, em “natureza
amoral”... Na quarta capa do livro de Bonder está escrito o seguinte: _
“Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há
um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a
desobediência representa respeito. Há um olhar em que se reconhece os
curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que
desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e
traições de grande lealdade. Este é o olhar da alma. Reconstruindo os
significados de “corpo” e “alma”, Nilton Bonder contrapõe o conceito de
alma imoral do texto bíblico ao animal imoral da psicologia
evolucionista”.
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O
rabino Nilton Bonder é o autor do livro em cuja peça é baseada |
Conceitos arraigados como o da obediência e desobediência, do respeito e
do desrespeito podem parecer sempre contraditórios. Na verdade, são
conceitos que andam juntos, como pontos e contrapontos, na busca perene do
equilíbrio. Na natureza, sempre prevalece a procura e o prestígio do
equilíbrio, do ponto ótimo, da compensação. O que dizer, então, a respeito
de corpo e alma? A ética da natureza é, sobretudo, baseada na preservação
da vida, no ensejo dos ciclos evolutivos, mas não nas razões dos homens.
Em todo caso, fico com a primeira impressão de que, embora sem comprometer
o todo, parte do texto de Bonder faz concretamente um certo jogo de
palavras, construindo uma trama bem urdida de pontos e contrapontos, que
valem por si mesmo, sem maiores conseqüências, isto é, valem como
habilidades literárias. Será que a natureza conhece a dita traição?
Os propósitos da
natureza mereceriam melhor aprofundamento e conceitos mais nítidos. Quando
os instintos são menosprezados, e até criticados por alguns eruditos como
coisas viciosas, é confortável constatar o que Bonder aponta: sem as
proclamadas traições da alma, face às tradições da sociedade humana, a
preservação da espécie humana estaria seriamente afetada, prejudicada...
A rebeldia, atribuída às almas é, parece-me, a busca da preservação, a
luta pela vida, a batalha pelo direito de crescer e de reproduzir, eis a
questão. A natureza, que não pede julgamentos, não está preocupada em
ficar nua ou vestida como nós; a natureza não conhece a nudez, não sabe
que está nua. A natureza é como é, amoral, despida, eu diria, de corpo e
alma. Mas a nudez humana continua dividindo, inquietando, fazendo muita
gente, diante dela precisar tapar os olhos para conseguir ouvir...
Para ser menos complicado, até menos infeliz, o ser humano precisa com
urgência, fazer um pouco o que Bonder, com outras palavras e com seus
jogos sutis, procura propor em seu livro ( e na peça ) :transgredir as
regrinhas inventadas por ele mesmo, homem, e deixar de ver o mundo de
forma vesga e míope; os palpites antropomórficos geralmente sustentam, não
resistem à prova científica.
A
grande mesmice acaba sendo julgar a nudez como algo insólito, necessário
ou desnecessário, como se ela, nudez, fosse um mero apêndice. A nudez não
é moral ou imoral, provocante ou desconfortável : a nudez é verdade
natural! O bicho-homem, esse predador suicida, como eu costumo definir,
prossegue nascendo nu, pelos quatro cantos desse planeta aflito. A vida é
um vasto campo de energias, e as energias nunca foram morais ou imorais.
Existir não é necessariamente trair ou transgredir; existir é ser, somente
ser. Eu sou, o outro é, o tempo é, o mundo é. Dizer mais o quê? Seria
melhor falar mansamente como as águas do regato, pois a humanidade anda
falando demais, até berrando, tagarelando continuamente sem motivo,
agredindo os ouvidos e a sensibilidade.
Talvez seja oportuno citar agora o cacique Seattle em sua famosa carta: _
“O homem branco não compreende nosso modo de viver. A terra não é sua irmã
nem sua amiga; depois de exauri-la, abandona-a, deixando para trás o
túmulo de seus antepassados e os sonhos de seus filhos... Não há lugar
calmo nas cidades dos homens de pele branca; a algazarra insulta os
ouvidos”... Eu acrescentaria que além da falação, muito do que se escreve
por aí, jamais encontrou eco na natureza: são fábulas e futilidades.
Quando se aproxima a
badalada festa dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro 2007, recordemos
que, nas velhas olimpíadas da Grécia os atletas apresentavam-se totalmente
nus. A nudez não afrontava ninguém, nem fazia com que as pessoas fechassem
seus olhos ou se virassem de costas para o espetáculo; havia menos
hipocrisia! De fato a nudez sempre foi nossa identidade.
Na peça de Bonder, a atriz Clarisse Niskier não está nua por acaso, nem
por exagero. Não seria equivocado afirmar que é bom estar nu de corpo e
alma para ser livre de verdade, para alcançar o infinito.
Em tempo: Como também sou um apaixonado por gatos, devo dizer que o meu
bichano, chamado Gypsy, negro de olhos verdes, companheiro, pouco sociável
e grande caçador, não paga condomínio, IPVA, IPTU, imposto de renda, não
sabe ler(nem, precisa) e come sempre de graça, além de tomar sol e
perseguir rolinhas no terraço do meu apartamento. Os elefantes, por
exemplo, nunca escreveram uma crônica nem descobriram o DNA ou pensaram em
construir uma nave para ir a lua... Todos o seres vivos merecem respeito e
atenção, mas sem meras colocações antropomórficas, que, em muitos casos,
atrapalham em vez de ajudar. Como diria o velho Chacrinha: _ “Alô, Dona
Cora, jacaré pra cantar demora...”
*Biólogo, escritor, ex-presidente da Rio-NAT
indiangy99@yahoo.co.uk
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