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A roupa
Isto é intolerável, ululou o chefe de seção no primeiro dia em que o viu vindo sem roupa pelo corredor. Pois sim -corroborou Aristides-, aqui todos vêm vestidos com péssimo gosto. Como estava na Primavera, supomos que aquilo duraria no máximo até o começo do outono e que logo o próprio clima devolveria as coisas a seu curso normal. E a seu curso voltaram, em novembro, as águas dos ríos, a chuva das irrigações e os lagartos dos pântanos. Mas nada mudou em Aristides, exceto aquele ligeiro estremecimento de ombros quando concluía a jornada e os trabalhadores saíamos à rua. Isto é inaudito, exclamou o chefe da seção embutido em sua gabardina. Ao que Aristides comentou com ar indiferente: É verdade, todavia não nevou. Dos murmúrios, pouco a pouco fomos passando à idolatria. Todos queríamos ir como Aristides, caminhar como ele, ser tal qual era ele. Mas ninguém parecia disposto a dar o primeiro passo. Até que em uma manhã quente, porque certas coisas terminam sempre sucedendo, algum de nós irrompeu na oficina sem roupa e temeroso. Não se ouviu nem uma só gargalhada, senão um profundo silêncio e inclusive depois algum aplauso. Ao contemplar aquele corpo desnudo desfilando pelo corredor, muitos fingimos não dar-nos por inteirados e seguimos com nosso labor como se nada houvesse. Até que, ao cabo de poucas semanas, já era uma extravagância encontrar na oficina alguém vestido. O último a render-se foi o chefe da seção, que em uma segunda-feira se apresentou em toda sua veluda flacidez, comovedoramente feia, mais manso que de costume. Então todos os empregados nos sentimos aliviados e poderosos. Cruzávamos pelo corredor dando gritos de euforia, nos dávamos palmadas nas nádegas, nos mostrávamos os bíceps. Não obstante, cada vez que tentávamos buscar a olhada cúmplice de Aristides, encontrávamos nele inesperados gestos de desprezo. Sei que não será simples resistir ao Inverno, para o que apenas restam uns dias. Me disse a pele da espádua, que se arrepia ao passar junto das janelas, e os músculos dos ombros, que tendem a encolher-se à hora de sair. Pese a estes inconvenientes, o que mais me tortura é a sensação de ridículo que me assalta ao recordar-me vestido durante tantos anos. Portanto, estou disposto a manter-me assim todo o tempo que seja necessário até que os demais reconheçam meu valor, até ser o último desnudo de todo o escritório. Ainda que, por algum motivo, todavia não tenho a sensação de vir ao trabalho igual a Aristides. Digamos que eu tento a cada manhã. E não, não é a mesma.
*Andrés Neuman Galán (Buenos Aires, 28 de Janeiro de 1977), escritor e colunista hispano-argentino centrado em poesia, novela e relato. Fonte: http://es.wikipedia.org/wiki/Andr%C3%A9s_Neuman Página oficial: http://www.andresneuman.com/ (enviado em 29/04/07 por EDU L) |
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