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ENTRE O SAGRADO E O PROFANO: A VISÃO DO CORPO NU NA IDADE MÉDIA por Jorge Bandeira*
Pensar o medievo nos dias de hoje é aproximar o homem de uma utopia entre a redenção e o pecado. Sim, é através desta análise que teremos em conta que não existiu uma “Idade Média” ou “Idade das Trevas”, termos que foram cristalizados pelos homens do Renascimento, de forma jocosa, preconceituosa e , de certa forma, vingativa.
É neste contexto que se insere a História do Corpo neste período da História Ocidental, objeto de transgressão e de conduta ilibada por parte de leigos e religiosos, preocupados em dar vazão aos incontáveis atributos do elemento corporal humano, visando uma integração do mesmo, visto que seria impossível a fuga deste elemento (o corpo material) para os que estivessem vivos.
Os mortos não necessitavam mais do “corpo físico”. A História que se cria deste corpo, o santificado e o torturado, é feita de paradoxos e dilemas. Aos artistas da Idade Média coube o papel de decifrar este enigma chamado corpo humano, que num primeiro momento do medievo foi alongado e tornado desproporcional, etéreo, para que fugisse ao máximo da perfeição representativa do mundo pagão da antiguidade clássica, notadamente da Grécia e de Roma, universos culturais pagãos, derrotados pelo avanço irrestrito do Cristianismo no Ocidente.
A oscilação girou entre a repressão ao corpo nu e a liberdade, sendo que as pinturas e afrescos nos permitem vislumbrar uma dicotomia entre a salvação celestial e os castigos dos pecadores nus que iriam sucumbir no inferno abissal. A nudez era tida como um desafio, mas uma decisão unânime sobre o que fazer com ela não era tarefa fácil aos homens do medievo.
Caracterizada como uma civilização que prezava o gestual, o corpóreo, a Idade Média lidou de diferentes formas com a nudez, determinando novas bases para a absorção deste Nu, jamais eliminando a nudez do rol de suas discussões. A classificação entre o profano e o sagrado para a nudez seria o resultado de longos embates por estudiosos e lideranças eclesiásticas, e nos países europeus as decisões não eram homogêneas, e dependendo da localização geográfica, as regras de recato e conduta dos que tinham a nudez como pura e sagrada eram toleradas e mesmo incentivadas entre administradores políticos e religiosos.
A tentação demoníaca alcançou o corpo nu, demarcando a nudez do homem e da mulher, porém a “serpente medieval” foi benevolente com muitos artistas e habitantes que acolheram a nudez em suas vidas e criações. Nem todos foram vitimados pela fogueira do Tribunal da Santa Inquisição. A máxima de São Francisco de Assis “Seguir nu o Cristo nu” foi produzida ainda na Idade Média, e devemos recordar que estes dizeres poderiam colocar o homem no caminho do salvador, e para sua salvação poderiam representar devoção, pobreza e renúncia.
A civilização medieval possuía uma forte presença corporal, de extensa materialidade física, repleta de corpos nus em sua iconografia, representados “ao natural”, para o deleite de uns e desespero de outros. Para os modernos historiadores é impossível acreditar que somente as sociedades contemporâneas foram as primeiras a se interessar por este corpo nu carregado de complexidades, onde a nudez não seria perdoada em hipótese alguma. Para muitos destes estudiosos a nudez representou a redenção da própria Idade Média, caso contrário o avanço cristão não teria a base concreta de expandir-se, e a concretização está no corpo nu, e não na metafísica abstrata da alma. Para os medievalistas Jacques Le Goff e Nicolas Truong “o corpo é nossa História”, o que nos é difícil contestar em se tratando de uma sociedade que vivia da pregação da salvação do homem ainda em vida, e de seu corpo purificado, nu ou não, naturalmente.
*Historiador, pós-graduado em História Social da Amazônia e História e Crítica da Arte.
Naturista, é Diretor de Divulgação da
Graúna-AM figuras medievais retiradas do endereço |
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