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Programa de índio
por
Carlos Sena*

Uma questão que me tem
levado a muitas perguntas nesta minha vida naturista é a dificuldade que
nós, amazonenses, temos de arregimentar membros para o nosso grupo
naturista, fincado no coração da Amazônia. Parece que quanto mais
amazônida é a terra brasileira mais dificuldade têm as pessoas de tirar a
roupa. Amazonas, Pará, Rondônia, acho que não chegamos a somar uma centena
de naturistas em toda a Amazônia. Por quê? Posso responder? O amazônida
tem pavor de ficar nu. Não que ele não tenha vontade, pois tenho notado
que muitos ainda carregam dentro de si o instinto da nudez. O problema é
vergonha mesmo. Não a vergonha de ficar nu, mas a vergonha de ser
confundido com índio.
Engraçado que, quando
criança, eu também carregava esta vergonha. Ficava danado quando, andando
nu, me chamavam de índio. Que pecinha mais extravagante, porca, rudimentar
e subestimada é o índio. Como civilizados que somos, adoramos índio,
brincamos de índio, lutamos em defesa dos direitos do índio, mas ser
confundido com índio, jamais!
Ser confundido com índio é
negar tudo aquilo que conquistamos como pessoas civilizadas: a educação, o
amor-próprio, o direito aos direitos, o status, a tecnologia. Ah! a
tecnologia. Para o ex-índio, as bugingangas tecnológicas dão status e
conferem um ar de pessoa civilizada para os seus donos: meu celular, minha
televisão, meu carro, minha maquina de filmar. Índio que é índio não tem
disso não. Andar nu, tomar banho pelado, isto não lhe pertence mais.
Naturismo? Nem pensar...
Certa vez, estávamos eu e
minha esposa participando de uma reunião da Funai para tentar obter uma
carteira de identidade indígena para mim e para minha mãe. Lá estavam
vários ex-índios e descendentes de índio, moradores da comunidade do
Brasileirinho, onde eu tenho um sítio para praticar naturismo. Era plano
da Funai transformar toda a área do Brasileirinho em uma reserva indígena.
Particularmente, eu tinha segundas intenções: como índio reconhecido pela
Funai, iria desencadear uma luta para resgatar o meu direito de andar nu.
Uma vez li numa camiseta que índio bom é índio nu. Iria brigar como um
índio mau para ser um índio bom.
Mas voltando à reunião da
Funai. Em um dado momento, uma velha senhora, que se dizia índia e que
tinha acabado de falar no seu celular, me viu e sabendo quem eu era,
gritou: índio não anda de carro. E minha esposa respondeu: nem usa celular.
Ledo engano das duas: conheço índio (índio mesmo) que tem antena
parabólica, televisão, celular e o escambau...
No final das contas ninguém
foi aprovado nos testes da Funai. Ninguém sabia responder qual era a sua
etnia e nem falar coisa nenhuma em sua língua nativa. E nem eu e nem minha
mãe. E o projeto se transformou numa peça teatral natimorta. Perdemos a
identidade literalmente. Hoje continuo sem saber responder se sou um índio
que virou professor universitário ou se sou um professor universitário
querendo virar índio.
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Naturista homenageia o índio em seu dia no Mirante do Paraíso. |
Enfim, é triste reconhecer
que para a grande maioria dos amazônidas, a nudez é coisa de índio e que
aqui nesta terra de Ajuricaba, ninguém é indio. Somos todos pessoas
civilizadas e portanto, distante de tudo que lembre nossa condição de
descendentes de índio. E como civilizados nos acostumamos a ver a nudez
como uma coisa imoral, como arma sedução ou como peça de apelo comercial.
Ver uma mulher pelada sem sentir tesão é inadmissível para pessoas
civilizadas como nós. Que graça tem ficar nu no meio de mulheres nuas e
não poder exercitar a nossa condição de homem? Deixamos de ser índio para
virar um bando de tarados ansiosos para ver a nudez alheia nos cabarés
onde a promiscuidade rola solta.
É duro ouvir de amigos que
acabamos de convidar para um encontro naturista, se lá no encontro rola
sexo. Respondo que, sob este ponto de vista, o naturismo é uma grande
sacanagem: todos ficam nus e não rola nada. Isso é coisa de índio, contra-argumentam.
E finalizam com um tiro de misericórdia: naturismo é programa de índio. Tô
fora...
*profsena@gmail.com
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