NATURALMENTE # 7


por Paulo Pereira*
 

foto: Pedro Ribeiro

Antes do almoço no XXX Congresso Internacional de Naturismo

Anoto com alegria verdadeira, que estamos completando um (1) ano com a nossa coluna “Naturalmente”, e percebo como tem sido importante escrever de forma construtiva para tantos leitores, especialmente quando sabemos que o número de analfabetos e semi-analfabetos, no Brasil, é tristemente assustador. Espero firmemente que a minha mensagem possa ser bem recebida e entendida pela maioria.
As eleições chegaram quase juntamente com a primavera. É tempo de renovação e de crescimento, e a natureza nos ensina que a construção do amanhã, vinda do ontem, se expressa concretamente agora. É grande a responsabilidade histórica de cada um que, ao votar, acaba revelando a si próprio, e mostrando o retrato da nação.

 

Mas a natureza, como afirmo com ênfase, não pede o julgamento de ninguém, nem prestigia os palpites e as subjetividades dos homens. A primavera, repito, está de volta; e, em novembro, teremos mais um Congrenat. Por tudo isso, devemos reafirmar também as origens e os fundamentos do Movimento Nudista-Naturista, lembrando os pioneiros.

 

Prestigiando a história, e não os meros casuísmos, gostaria de falar um pouco de Richard Ungewitter, fundador, e de seu livro “Das Nacktheit”, “A Nudez”, obra de referência. O texto original, em alemão, data de 1905, sendo considerado por alguns como o “Velho Testamento do Nudismo”, segundo palavras de C. Cinder, autor de “The Nudist Idea”.

 

Na introdução, Ungewitter afirma que estávamos no ponto de partida de uma nova era (1905), e menciona os trabalhos científicos da teoria da evolução. Ungewitter dizia que, no início do século XX, estávamos num período de transição entre os velhos e os novos benefícios, fazendo observações de crítica direta às posições da Igreja Católica; segundo ele, a Igreja estigmatizou “o corpo nu” como algo pecaminoso...Afirma enfaticamente o precursor do Nudismo-Naturismo: _”Atitudes livres, natural e moralmente puras, provenientes de sentimentos saudáveis, devem assumir seu lugar como uma força poderosa de orientação de nosso contínuo desenvolvimento físico e espiritual”. Colocação oportuna e preciosa. É buscando e estudando suas boas raízes, que o Movimento Naturista pode encontrar caminhos bem traçados e seguros.

 

Registro, com destaque, o pioneirismo de Richard Ungewitter, sem exageros ou divinizações, mas com a objetividade que o Movimento parece exigir.

 

Registro igualmente uma longa carta enviada pelo amigo Bruce, de Oklahoma, USA. Sem dúvida alguma, o texto de Bruce é uma análise inteligente e bem realizada a respeito do meu livro “Corpos Nus”; poucas vezes tenho lido matérias de tão boa qualidade, forma e conteúdo. O olhar de quem nos vê à distância, mas com nitidez e profundidade, salienta pormenores relevantes; eis alguns parágrafos da carta de Bruce:
_ “Desfrutei enormemente da leitura do seu texto (edição especial de 2006). É uma obra sumamente importante e bela. Parabéns! A mensagem não poderia ficar mais clara; você estruturou o texto para repetir e enfatizar alguns pontos básicos (nudismo não é exibicionismo nem puritanismo, nem topless nem oba-oba; não basta tirar a roupa para ser nudista, etc.) e especialmente a definição, repetida, oficial, da INF. Acho que a organização do texto em história, depoimentos, destaques, etc. facilita a leitura e realça a diversidade de perspectivas, como você observou. Fiquei muito bem informado quanto ao pioneirismo de Ungewitter e da escola Summerhill, do contexto indígena brasileiro e da pioneira, sua amiga Luz del Fuego, na Ilha do Sol, do estabelecimento da Rio-Nat e da A.N.B., e do longo processo legal que tem sofrido a Praia de Abricó, para destacar só alguns temas.

 

Pedindo de antemão desculpas pelos erros de português que sem dúvida aparecem nesta carta, gostaria de fazer uns comentários quanto ao texto para assim entrar em diálogo com você e seguir com a minha aprendizagem. Enfatizo que a minha preparação é literária e meus interesses de pesquisa atuais têm a ver com a representação literária do corpo, especialmente na literatura brasileira e hispano-americana das décadas de 1920 e 1930. Quando nós nos conhecemos e você me disse que é biólogo, eu falei em The Naked Ape, de Desmond Morris, e você confirmou que o livro (que eu li na minha adolescência) foi uma das fontes que utilizou. Entre outros lugares, vejo que fala do texto do Desmond na p. 292:

 

foto: Pedro Ribeiro

Praia de El Portús, Espanha.

_ “O homem está nu, pelado, e afirma sua sabedoria, sua superioridade… Esse homem, como salienta Desmond, possui o maior cérebro entre os demais primatas, e igualmente o maior pênis, embora procure omitir esse último atributo superlativo. Qual seria a razão? Ter o pênis grande, em relação aos primos, seria evidência pejorativa? Talvez. A motivação fundamental, o instinto, a grande freqüência de sua atividade sexual, por exemplo, são quase sempre renegadas a um segundo plano, certamente porque o ‘macaco nu’ procura elevar-se acima dos semelhantes, dos aparentados, e da própria natureza, buscando definir-se como um ser superior, meio angelical.”

 

Eu concordo inteiramente com você e saliento que, entre os primatas, os humanos também têm os maiores seios, e sobre esse superlativo o Desmond gasta, sim, muita tinta, teorizando que sua forma se assemelha à das nádegas para incitar o desejo dos homens. É contraditório o tempo gasto pelo Desmond no tema dos seios em contraste com o fato de ele não mencionar o pênis, e acho que isso ressalta ainda mais a tese de você do porquê ele não o menciona”.

 

...As palavras de Bruce são sobretudo, um grande estímulo. Fica em mim a impressão, afinal, de que nem tudo está perdido nesse país de contrastes inquietantes, tão nivelado por baixo, especialmente nos últimos anos, infelizmente; as verdades naturais e a história real ainda têm o seu lugar porque viver não é exercício de inconseqüências, embora muitos ilustres desavisados sejam pródigos em matéria de disparates e de inverdades, buscando descaminhos, que iludam os desatentos. Precisamos nos empenhar para melhorar o nível de vida no Brasil, e o Naturismo bem concebido pode efetivamente ajudar.

 

Paulo Pereira.

Outubro 2006.

 

Em tempo: na edição de dezembro, prosseguirei falando, inclusive, da obra de R. Ungewitter (Das Nacktheit).
 

*Biólogo, escritor, ex-presidente da Rio-NAT

indiangy99@yahoo.co.uk

 

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Jornal Olho nu - edição N°72 - outubro de 2006 - Ano VII


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