') popwin.document.close() }

NATURALMENTE # 6


por Paulo Pereira*
 

Os palanques políticos, repletos de populismo e de demagogia, substituem os palcos embandeirados da celebrada copa do mundo, e parece que tudo acaba tendo o mesmo sabor do engodo. Esperemos que chuvas e ventos renovadores, revigorantes e feitos de verdade possam varrer a mesmice de pouca imaginação.

 

Quem sabe a nudez, de corpos e consciências, acabe prevalecendo, natural e inapelável? O sol quente e dourado costuma suceder as trevas e as névoas frias...

 

Recordo que prometi, em junho, falar um pouco mais a respeito do longo artigo chamado “Naturism in Brazil”, de Mark Storey, na “N” - The Magazine of Naturist Living. De fato, o autor comenta, de passagem, que os naturistas brasileiros são bem educados, de bom nível cultural, e com bom conhecimento da língua inglesa... Parece-me que Storey faz uma boa observação, até porque há uma tendência de considerar o naturismo e o inglês como modismos, fato de fácil constatação entre nós, pelo menos em alguns círculos sociais. Talvez, entretanto, fosse oportuno separar o joio do trigo. Storey parece ter sido, sobretudo, gentil e otimista. Sem considerar possíveis estatísticas, ou esparsas amostragens, talvez seja válido notar que há transbordamentos, que há muita gente pouco avisada que pensa que é naturista e que fala inglês... É parte do show da vida. Mas Storey não faltou com a verdade.

 

O artigo ressalta que há um número crescente de praias e espaços naturistas no Brasil, e que a nudez, fora das festas do carnaval, também tem encontrado melhor aceitação.

 

A praia de Abricó (Grumari), no Rio, mereceu também destaque, com pormenores sobre a situação e as condições da praia. Storey destaca, no artigo, igualmente a Colina do Sol (Rio Grande do Sul), o Mirante do Paraíso (São Paulo), a Praia do Pinho (Santa Catarina), Pedras Altas, Praia Brava, Olho de Boi, Barra Seca e Galheta.

 

Como já foi dito, aparece uma matéria especial, embutída no artigo, de autoria de Roberto Marques Soares, e tradução de Peter Farrand, sobre Luz Del Fuego, A Musa do Naturismo Brasileiro... Roberto Soares começa por uma breve e bem concebida biografia de Luz, Dora Vivacqua, nascida em 21 de fevereiro de 1917. Apesar de sua herança familiar conservadora, Dora foi sempre inovadora, libertária, livre, e teria afirmado, certa vez, que tinha dois objetivos principais na vida: proteger os animais e praticar o nudismo.

 

Como Roberto Soares ressalta e afirma no seu artigo, eu (Paulo Pereira), desde 1997 (Corpos Nus, 1ª edição) e 2000 (Corpos Nus, 2ª edição), já colocava Luz Del Fuego como Eva morena dos palcos cariocas, amante franciscana da natureza nua, musa meiga e inspiradora de todos os naturistas brasileiros... Soares pesquisou e, afinal, conseguiu ser didático, desenhando um perfil justo de Luz Del Fuego.

 

Essas coisas confortam quem, como eu, tem lutado para proporcionar uma visão mais isenta e mais nítida da grande pioneira nudista do Brasil.

 

Em 1947, como está colocado no artigo, Luz publicou “Trágico Blackout”, defendendo uma dieta natural, sem álcool e sem produtos animais. Em 1950, surge “A Verdade Nua”, o primeiro livro naturista do Brasil.

 

Roberto Soares reafirma o pioneirismo de Luz Del Fuego, salientando que ela, nos anos 50, funda o Movimento Naturista Brasileiro e o Clube do Sol,(Ilha do Sol), Tapuamas de Dentro, Baía de Guanabara, Rio. Isso é história.

 

Em 1967, conclui Roberto, Luz foi assassinada covardemente por ladrões oportunistas, por pescadores inescrupulosos, que usavam indevidamente a dinamite. Diz Roberto, a bem da verdade, que o ideal de Luz não morreu com ela, permanecendo com seus seguidores, conforme explico no meu livro “Corpos Nus- Verdade Natural”.

 

Dou o meu recado: espero que não se afirme jamais que Luz Del Fuego foi morta por alguns de seus seguidores, por nudistas, o que constitui injúria grave; e que não se fale jamais em diásporas dentro do Movimento Naturista Brasileiro. Afinal, a verdade se afirma!

 

Percebo, por outro lado, que a nudez continua sendo vítima de enfoques míopes, para dizer o mínimo. Na mesma edição da revista “N”, que trata do Naturismo Brasileiro, há outro artigo valioso, de autoria de Rob Boyte, sob o título “Clothes-Minded Revisionists”. Recomendo a leitura. Observa o autor que ditames (normas impostas) políticos e culturais influenciam e orientam enfoques científicos, o que é uma vergonha em vários aspectos. A verdade natural fica encoberta pela censura dita acadêmica, numa confusão intencional entre natural e costumeiro(cultural). É bom enfatizar, aqui, o que tenho dito: o corpo nu é uma verdade natural, que não deve ser disfarçada, até porque a nudez é implacável e definitiva, desde o berço.

 

Evitemos os artifícios, e todos os enganos. A história não se faz no condicional. A sua cabeça não é a que você vê no espelho; é a que está acima do seu pescoço...Como diz sabiamente a monja Coen, zen budista, não pare no tempo; está tudo rodando, girando, mudando; tudo sempre se transformando... Mas como a natureza quer, e não como supõe nossa vã filosofia. Seria bom, então, que o naturista verdadeiro procurasse ser mais atento, mais consciente, mais objetivo; seria bom que o nudista autêntico buscasse seguir um conselho de Gandhi:_ “Temos que ser a transformação que queremos no mundo”... O naturista deve se transformar na paz desnuda!

 

Mas é bom também considerar, por outro lado, que a natureza não costuma ter pressa nem dar saltos amalucados. A vida se faz plena a cada momento. Eu sou e você é! Eu sou e você é não as roupas que vestimos mas sim nossos corpos e nossas essências. Também é bom lembrar que, a rigor, não há pequenas nem meias verdades porque elas são meramente enganos.

Agosto/2006.
 

*Biólogo, escritor, ex-presidente da Rio-NAT

indiangy99@yahoo.co.uk

 

Clique aqui e saiba como adquirir a nova edição do livro de Paulo Pereira: "Corpos Nus - Verdade Natural"

Jornal Olho nu - edição N°70 - agosto de 2006 - Ano VII


Olho nu - Copyright© 2000 / 2006
Todos os direitos reservados.