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Nudez ética como oposição à nudez obscena



Revista INFO-Naturista
Naturismo na Itália
Publicada pela FENAIT
Número 29
Primeiro trimestre de 2006


Texto de Giovanni Chimirri
Fotos: Paolo Zebelloni

 

Os Humanos nascem nus e permanecem nus a vida toda.

 

As pessoas nunca se deram conta do fato que nossos corpos são naturalmente nus. Esta constatação é difícil de se entender, quando nos referimos aos seres humanos sempre se forma em nossas mentes corpos vestidos. Os humanos nascem com todas as partes corpóreas que todas as demais espécies animais possuem (pernas, pele, escápula, braços...). Assim sendo, os humanos nascem nus e se mantém estruturalmente nus. Podemos afirmar que todos se sentem mais à vontade nus e que só se vestem por causa dos outros. A nudez, numa visão simples, elimina as inadequações dentre os humanos e nos relembra de nossa condição de criaturas. Convida-nos a uma contemplação desmistificada, nos remete ao senso inalienável da dignidade de nossa pele e de nós mesmos.
 

Todas as partes físicas do corpo humano são recobertas pela pele e apenas através da cultura é que o ser humano tenta recobrir esta “vestimenta epidermal” com sua própria “pele artificial” (vestindo-a, tatuando-a, fazendo operações plásticas e exibindo-a eroticamente) da maneira com a qual eles sentem ou se vêem “internamente” e especificamente para descobrirem seu verdadeiro “eu”, ou como se diz “desnudar-se”.

 

Certos humanos também sentem a ‘necessidade’ de cobrir seus corpos (cobrir a pele para parecer civilizado); esta cobertura, no entanto, não é sempre necessária ou apropriada, porém, o contrario é ofensivo e inaceitável para eles (só que os seres humanos só fazem streaptease por estarem vestidos).

 

Nudez, decência e as funções das roupas.

 

Numa primeira avaliação perceberíamos que a nudez seria algo como acabar totalmente com a decência. Alguns minutos após nosso nascimento somos vestidos e assim nos mantemos pelo resto de nossas vidas. O processo lógico na cabeça humana seria: nudez > aprender a decência > vestir-se. Mas esta lógica não é tão linear como parece e a correlação entre decência e vestimenta não pode ser tomada como uma garantia.

 

Devemos observar que vestir-se é apenas uma das possibilidades de decência e não uma de suas conseqüências. Na verdade a maioria dos antropólogos e psicólogos de todo mundo concordam sobre algumas das funções das vestimentas, que relatamos abaixo: 1) individualização e criação de distinção geral; 2) proteção física; 3) proteção mágico-psicológica; 4) diferenciação sexual; 5) higiene; 6) indicação de status social ou existencial (crianças, solteiras, casadas, velhice, viuvez...); 7) indicação de status profissional ou financeiro (uniformes, adornos, ternos...); 8) erótica (sedução, prostituição, pornografia...)

 

Sempre houve pessoas que adotaram as roupas como símbolo de decência, porém a cobertura de seus corpos varia de lugar para lugar. Por exemplo, Indianas cobrem suas barrigas e costas, mas não se importam de mostrar suas pernas. Européias cobrem seus seios, mas as Africanas deixa-os a mostra. Muitas sociedades primitivas vivem nuas, mas também não se descuidam da decência. Os guerreiros com as pontas de suas lanças amarradas aos braços, as jovens solteiras com seus braceletes, a magia destes adornos é que todos eles servem para que em suas cabeças eles estejam decentes (já que sem estes eles se sentiriam nus e vulneráveis). Não devemos nos esquecer das mulheres mulçumanas que se sentem nuas ao retirar seus véus (como o Alcorão e as tradições impuseram a elas).

 

Todas estas variações de decência social não têm nada a ver com moral, bem como não se pode considerar que uma decência seja inferior à outra (como já foi dito na antiguidade). Ao contrario disto, percebemos que dentre as sociedades que vivem nuas ou seminuas existe mais decência do que nas sociedades do chamado “mundo civilizado” (onde os humanos normalmente usam roupas).

 

Sentimentos opostos frente a pessoas nuas

 

Ficar frente a frente com outros seres humanos nus pode nos proporcionar sentimentos positivos de maravilhas, liberdade, alegria, admiração, beleza, amor, harmonia com a natureza... Ou, por outro lado, pode nos proporcionar sentimentos negativos como medo, vergonha, pânico, desgosto, transgressão, vulnerabilidade...

 

De um lado vestir-se pode ser considerado danoso e ofuscante do quão bom é estar nu, ou por outro lado, pode ser julgado positivamente por nos proteger da nudez que é considerada ruim por si só.

 

Na história das religiões e das civilizações ambas as situações são encontradas e tudo depende da intenção moral com que são tratados os corpos nus. A nudez pode ser experimentada e contemplada como uma bela obra de arte, ou por outro lado, a nudez pode ser tratada como “carne a ser saboreada” ressaltando assim uma enorme excitação sexual. No entanto ninguém precisa estar totalmente nu para estar sexualmente excitante, tudo que precisa ser feito é mostrar de relance uma ‘ilícita’ parte de seu corpo, mesmo estando vestido. Portanto a nudez não pode ser uma condição mais pecaminosa ou demoníaca do que estar vestido!

 

Despir-se ou fazer um Streaptease – nudez ética e nudez pornográfica

 

Agora é a hora de se fazer uma diferenciação básica. Quando os corpos estão vestidos, os processos para se chegar à nudez podem ser chamados de: despir-se (= positivamente, eticamente, nudez vindo de forma natural...) ou fazer um streaptease (= negativamente, obscenamente, nudez vindo de forma erótica...). Quando alguém faz um streaptease ela/ele degrada seu corpo ou explora-o, viola-o, escraviza-o... É importante notar que quando o streaptease acaba o sentido dele perde o interesse e por isto ele deve ser prolongado ao máximo para se manter excitante.

 

Tipicamente o streaptease é usado de forma pornográfico, da moda, em anúncios, shows... Donde uma pessoa nua, com sua simplicidade, pureza, naturalidade, auto-respeito, racionalidade... Não gera interesse em si. Na verdade, o que é do interesse é uma gama de "nudez falsificada", em outras palavras, uma sofisticada, parcial, ambígua, fascinante, obscena, vendida, mistificada, ilusória, desinibida visão da nudez.

 

O grande paradoxo da nossa “respeitável sociedade moderna” é a permissão e legalização do que é definida por ela como “dissoluta, erotizada, pornográfica nudez” e ao mesmo tempo tenta proibir a outra nudez que a mesma sociedade define como “virtuosa, racional e ética”.
 

(enviado em 5/06/06 por André Herdy)

Jornal Olho nu - edição N°69 - julho de 2006 - Ano VI


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