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NATURALMENTE # 5


por Paulo Pereira*
 

 O inverno vem chegando, trazendo muitas nuvens cinzentas, nuvens de dúvidas e de interrogações... Faço, então, um pequeno exercício, buscando entender controvérsias, perplexidades e indefinições.

 

É ano de Copa, de Eleições!... Fica em mim a sensação insólita de que a vida acaba sendo também um jogo... As cartas estão postas e os dados lançados, mas quem, afinal, dá as cartas e põe os dados? Exercitemos, com lucidez, as grandes dúvidas.

 

Ao relançar, por exemplo, o meu livro “Corpos Nus, Verdade Natural”, edição especial, vivo algumas dúvidas e inquietações. Será que, ao escrever, consegui realmente transmitir minha mensagem com clareza?... No país do exótico e surpreendente Lula, que não sabe e que nada viu, haverá conhecimento válido e olhos que enxerguem com nitidez? Conseguimos, ao menos, ver um pouco além das meras aparências? Talvez... Numa época de superficialidade, de politicagem rasteira e de fanatismo futebolístico, haverá espaço para as verdades naturais, para a nudez digna, para o meu livro “Corpos Nus”? Talvez...

 

Por tudo isso, recordo, meio aflito embora confortado, algumas palavras, que escrevi sobre as coisas do velho Naturismo, ou Nudo-Naturismo, ou Nudismo... A questão, afirmei eu, que me parece essencial é a de entender que, a respeito da nudez, o fundamental é separar o nu material do nu fabricado; a nudez integral (corpo e mente) da semi-nudez, ou da nudez dos palcos e passarelas. Será que todos leram bem essas minhas palavras? Talvez...
 

Em “Corpos Nus”, eu falo, mais uma vez, de uma carta, que escrevi em 1968 (depois da morte de Luz Del Fuego e sem diásporas), para a revista “Jóia”. Na ocasião, eu salientei que derrubar tabus não é permitir necessariamente tudo; que a nudez não é nenhum problema, e que toda malícia, essa sim, será sempre castigada; que Naturismo e Nudismo são termos que, na prática (e na História) tem o mesmo sentido objetivo e que podem ser usados indistintamente. Será que todos leram isso com atenção?

 

Talvez... Os “lulas” não leram, não viram e não sabem...

 

O certo é que o Naturismo, ou Nudismo, não é um oba-oba inconseqüente!... O que preocupa é o fato lamentável de vivermos no país do jeitinho, dos preconceitos mal disfarçados, do não-compromisso, do esquecimento histórico e da preguiça de ler... O eterno faz-de-conta não serve como base nem esconde os preconceitos. Alguns pseudo-gurus chegam até mesmo a ter um certo orgulho do não-saber, da ausência de formação acadêmica, da falta de informação e coerência... Isso é fatalidade? Não creio.

 

Considerando o real saber, recordo algumas colocações de Rose-Marie Muraro. Escreveu ela: - “O corpo nu é sentido invariavelmente como uma ameaça àqueles a quem foi inculcado que a seriedade, a responsabilidade e o controle são valores a serem construídos sobre a negação do corpo. Nas sociedades primitivas, ao contrário, a nudez é uma forma de adaptação à vida. O corpo é simplesmente aceito como ele é”. É, pois, como quer Rose, a verdade natural que se impõe. Fica mais fácil entender o que eu quero dizer quando, como fiz no meu livro “Corpos Nus”, afirmo quase gritando que sou irmão de Aimberê e de Cumhambebe, valentes Tupinambá!... A nudez do índio (e do naturista) não pode jamais receber, ou acolher, o olhar vesgo da malícia hipócrita, muito comum entre todos os que nada vêem e nada sabem; entre os que costumam pouco entender do pouco que conseguem ler.

 

Ficar nu, em princípio, não é coisa de maluco... O que é a loucura, afinal? Talvez (sempre o talvez), como quis Gibran, apenas uma compreensão mais aguda do existir... Leonardo Da Vinci, sempre festejado, alertou: -“Cegante ignorância nos ilude; ó miseráveis mortais, abri os olhos!” E não se combate a fome e a ignorância com preguiça de ler!

 

Registro, finalmente, uma longa matéria, escrita numa publicação estrangeira, que destaca o Naturismo do Brasil: a revista “N” (The Naturist Society), Volume 25, nº2, Inverno 2005, sob o título “Naturism in Brazil” procura criar um panorama das atividades nudistas brasileiras, com várias fotos a cores. A matéria é assinada por Mark Storey. Oportunamente farei comentários mais detalhados a respeito dessa matéria publicada sobre o Naturismo Brasileiro. Aguardem. Mark Storey ressalta, por exemplo, que há um número crescente de praias nudistas e vários excelentes clubes no Brasil... É bom conferir.

 

A revista (The Magazine of Naturist Living)** foi generosa, abrindo um espaço de várias páginas dedicadas ao Naturismo no Brasil, sem esquecer, inclusive, o pioneirismo de Luz Del Fuego, que é reafirmado por um pequeno artigo assinado por Roberto Marques Soares e traduzido para o inglês por Peter Farrand. Repetindo minha colocação, já na primeira edição de “Corpos Nus” (1997), Roberto Soares chama Luz de “A Musa do Naturismo Brasileiro”. E Roberto conclui seu artigo dizendo: - “Em 1967, Luz denunciou dois irmãos, moradores de uma ilha vizinha, por praticarem pesca ilegal com uso de dinamite; ela foi morta por vingança. Foi um final trágico para uma dama corajosa...

 

Mas o ideal de Luz Del Fuego não morreu com ela (é bom que os falsos sabidos anotem isso, mais uma vez); seu ideal vive ainda pela ação dos naturistas brasileiros que reverenciam sua memória”. É reconfortante ler essa afirmação porque ratifica exatamente o que tenho sempre dito e escrito a respeito. E Storey conclui o artigo ( para a revista “N”) dizendo: -“O dinheiro e o tempo gastos para voar ao Brasil parecem ter sido mais do que justificados pelas belas praias, e clubes, que encontramos lá! Afinal, fica patente que o Nudismo-Naturismo, como sempre ressalto, não é uma onda, um louco modismo nem um mero oba-oba oportunista ou conveniente.
 

 

*Biólogo, escritor, ex-presidente da Rio-NAT

indiangy99@yahoo.co.uk

 

Ps: a edição especial de “Corpos Nus, Verdade Natural”, da Editora Livre Expressão, está sendo lançada neste mês de junho; o preço do exemplar é de $42,00 reais. As reservas devem ser feitas para o e-mail: indiangy99@yahoo.co.uk.
A edição especial de “Corpos Nus” tem uma tiragem limitada, contendo 330 páginas, sendo 40 páginas de fotos e ilustrações em papel couché. Espero, mais uma vez, que a filosofia e a história do verdadeiro Naturismo cheguem de forma objetiva e agradável aos amigos leitores.

 

**o site Mundo NU escaneou e disponibiliza em suas páginas, com a devida autorização dos editores, toda a reportagem da revista N magazine citada por Paulo Pereira. Clique no endereço abaixo para ler.

 

http://www.mundonu.com/blog/nmagazine/
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(enviado por Claudio Dias)

Jornal Olho nu - edição N°68 - junho de 2006 - Ano VI


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