|
Boas e más experiências
entrevista a Pedro
Ribeiro*
|
foto: Pedro Ribeiro |
 |
|
Reynaldo Ferreira, num momento de paz, durante o passeio de
Catamarã, realizado no Rio Paraíba. Ampliando você vai ver também
Julíndio no mesmo transe. |
Reynaldo Pires Ferreira, 60,
engenheiro aposentado, faz parte do Conselho da AGAL (Associação dos
Amigos da Galheta), em Florianópolis. Ao contrário do que se possa supor
de alguém que é engenheiro, é do tipo "zen", adepto de terapias orientais
e longas caminhadas. De aspecto tranquilão, concedeu esta entrevista ao OLHO NU,
falando da AGAL, de Tambaba e da viagem que realizou para a Espanha no mês
de setembro, e foi matéria do OLHO NU de outubro.
OLHO NU:
Como você está enxergando hoje em dia a praia da Galheta ?
Reynaldo Ferreira:
Lá há muitas dificuldades. Isto se deve ao fato de haver poucas pessoas
que praticam o naturismo. Na cidade de Florianópolis, as pessoas têm uma
visão distorcida da praia. Se espalhou que lá é uma praia de gay, que não
é legal ir lá, que não é bom para as famílias. Ficou com uma imagem
negativa. Mas a realidade não é bem essa. E a gente tenta mostrar para as
pessoas que não é bem assim. É essa a maior dificuldade.
Infelizmente são poucas
pessoas que a frequentam. Há certos períodos que eu vou durante o verão e
eu, particularmente, me sinto constrangido. Há cerca de 100, 150 pessoas e
nenhum naturista. Como é uma praia grande, as pessoas que querem praticar
o naturismo acabam se "escondendo" num cantinho para evitar ser observada
por tantos curiosos. Os naturistas se sentem muito constrangidos na maior
parte das vezes.
Já aconteceu comigo, mesmo
experiente como sou. Já encontrei um naturista aqui, outro a 50 metros,
outro a 100 metros. O pessoal não é muito unido. As épocas melhores são a
de menor frequência na cidade. Muita gente vai lá por causa da curiosidade,
fica um monte andando, querendo ver se tem alguém nu.
ON:
Você teve uma experiência oposta quando visitou a Espanha recentemente.
Qual foi a sensação ?
RF:
Na Espanha é diferente. Primeiro, porque a cada cinco, dez quilômetros
háuma praia para a prática de nudismo. Não há placas, nem qualquer
tipo de indicação, mas todos sabem que ali se podem tirar as roupas. À
vontade. Há frequencia de todo tipo de pessoa e de idade. Há pessoas com
roupa e sem roupa. A gente vai andando de uma praia a outra. Se lhe
incomoda, vai para outra. Se não, fica. Tira ou não tira. É uma coisa
bastante natural.
ON:
E a quantidade de nudistas nestas praias?
RF:
É bem grande. É mais gente sem roupa do que com roupa. Numa praia de 300
metros há duzentas pessoas. É bem cheia.
ON: E
quanto ao acesso, é fácil ou difícil ?
RF:
Das que eu conheci, uma você chega de automóvel ou vai pé por uma estrada,
anda uns cinco quilômetros de onde o ônibus o deixa. Há um estacionamento
em um terreno particular bem em frente. A outra, fica um pouco mais
isolada e é preciso andar uns vinte minutos até chegar. Um terceira, fica
numa área urbana. É como se estivesse na praia do Arpoador (Rio de
Janeiro). Há muitas outras que eu não conheci. Afinal eu não fui à Espanha
só para praticar o naturismo. Fui para outras coisas também. Um carro fez
falta para poder percorrer maior número.
ON:
Qual a experiência que você traz lá da Espanha para o Brasil ?
RF:
A realidade brasileira não é a realidade européia. O povo brasileiro é
diferente do povo europeu. É complicado fazer uma transposição de
atitudes. O que se espera é que daqui a alguns anos o povo se acostume com
essa idéia, o que muito natural. Eu tenho visto aqui em tambaba uma
coisa interessante: há muita gente jovem. Até alguns tempos atrás eu
percebia na praias brasileiras gente de mais idade, gente em torno de 40.
Aqui eu tenho visto muita moça jovem, casal jovem de 25, 30 anos de idade.
traz uma expectativa de que a coisa está evoluindo. Tornando-se normal.
espero que eles passem isso para outros jovens. Eu acho que uma célula que
vai se colocando e aos pouquinhos vai se multiplicando.
|
foto: Pedro Ribeiro |
 |
|
Reynaldo mostra a escultura feita em tronco de palmeira, que
decora a praia de Tambaba |
ON:
O que você achou do Encontro de Tambaba ?
RF:
Não participei de quase nada. Ouvi duas palestras ali, fiquei aqui na
praia hospedado. Achei difícil sair daqui para outros lugares. Estou sem
carro e ficou complicado. Então não posso dizer muito a respeito.
Mas há algumas coisas aqui
que me deixaram decepcionado. Por exemplo, estou ali na pousada, e há
outras pessoas que se dizem naturistas e estão hospedadas lá também, mas
fumam na varanda e jogama as pontas de cigarro no chão. Quando cheguei
aqui havia mais de 200 pontas de cigarrao em baixo das varandas da pousada,
bem como latinhas de cerveja, garrafas de água mineral, tudo emporcalhado.
Conversei com a menina da limpeza e ela limpou tudo. No dia seguinte
estava tudo cheio de ponta de cigarro de novo e se você for lá agora vai
encontar umas quarenta pontas de cigarro novamente. E se dizem
naturistas...
Ontem, o pessoal foi de
ônibus lá pro centro para pegar o passseio de catamarã em Cabedelo, eu fui
seguindo de carro, em uma carona, de repente voa pela janela um côco.
Depois, quando chegamos no centro (de João Pessoa), um cara que se diz
naturista, com crachá pendurado no pescoço, joga um panfleto na calçada,
do lado de uma lata de lixo ! Se tivesse andado mais dois metros teria
colocado o papel dentro da lizeira.
E no passeio (de catamarã)
teve algumas coisas lá que não me agradaram. Se se faz um passeio para ver
a natureza... naturista não é só ficar nu. É participar da natureza. A
maioria não estava observando a maravilha que tinha aquele manguezal.
Acho que nem perceberam os detalhes das raízes da árvores. As frutinhas
que caem na água e das quais os peixes se alimentam. As pessoas ficavam
rebolando e dançando. Quando passa um barquinho, um negócio ridículo, os
homesn ficam balançando os pênis,as mulheres, os peitos, para mostrar...
aí ó, nós estamos pelados, somos naturistas, olhem para nós ! Um negócio
ridículo... Teve um outro lá que começou a balançar a bunda, abaixar as
calças... extremamente desagradável. O som estava muito alto... um lugar
belíssimo e muitas estavam mais interessadas em se exibirem, em vez de
curtir o local.
Apesar disso, foi bonito. A
idéia foi boa, mas faltou parar o som por alguns momentos e convidar as
pessoas a admirarem a natureza e ouvir o seu som.
Bem, o Encontro serve para
isso. Não é só para elogiar. A gente descobre as falhas e tenta
corrigi-las. Se não existe conflito as coisas não evoluem.
|